domingo, 19 de outubro de 2014

Crônica


Vou contar às vovós



Os mais velhos e nostálgicos falam muito sobre o estilo de vida levado pelas crianças hoje em dia. Elas parecem ter certa pressa em crescer, sabem muitas coisas, que em nossos tempos de brincadeiras desconhecíamos ou não nos importávamos em aprender.

Colocamos a culpa pela perda dessa idade tão mágica e despreocupada em pais que trabalham fora, que sobrecarregam-nas de cursos e estão sempre exigindo que elas deem seu melhor. Mas essa semana comecei a pensar em quem sempre ensinava, escutava e defendia a liberdade de minha meninice.

Se as crianças mudaram muito se deve a atitude de seus avós. Tenho o privilégio de ter minha avós vivas, e sempre quando eu posso ligo para elas. Elas são do tipo tradicionais, uma delas tem vários gatos e cachorros, cuida do meu avó como se ele fosse criança, sempre está cercada pelos netos e bisnetos e chama o nome de todos até conseguir falar com quem deseja é um tal de Fá, Lú, Sú, Mí, Lind, Alda, e ninguém entende mais sobre sentimentos e dá conselhos com discernimento como ela, as vezes acho que prevê o futuro.  A outra toma chimarrão com as noras, se preocupa com todos os netos, joga bingo, quando eu era criança fazia blusas fofas de tricô, e nunca deixa que saiamos de lá sem comer alguma coisa. Tive elas presentes em toda minha infância.

Essa semana encontrei um modelo de avós diferentes, elas fazem História da Arte e estava visitando uma exposição da bienal no Ibirapuera.  Todas bem vestidas e com maquiagem própria para idade. Parei para conversar com uma delas, ela me contou que há seis anos está no curso e acha que é uma ótima forma de estar antenada e indicar os melhores programas para as filhas e os netos, que ligam perguntando o que tem de bom na cidade. É claro que este é um ótimo jeito de não ficar estagnado e usar a cabeça para não ficar com Alzheimer.  Elas tem a companhia das amigas e passam seu tempo de modo agradável.
Ainda assim se eu ainda fosse criança e ligasse para minha avó não iria querer ir em uma exposição, isso eu fazia com a minha mãe e com a escola, eu iria querer que ela me levasse no parquinho, fizesse pudim de chocolate com banana, me contasse uma boa história de quando ela tinha minha idade e deixasse que eu me sujasse porque antes da minha mãe chegar eu podia tomar banho.

Claro que elas tem que viver e aproveitar, mas os netos precisam que elas conheçam seus sentimentos e defenda-os de seus pais de vez em quando. Mostre que uma história as vezes não está em um livro e uma tela pode ser a parede da varanda e giz de escola, que dá para fazer flores com massinha de farinha e balas só com açúcar. 


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